O vale antes de existir um bairro
Durante a maior parte da história do Rio este trecho de costa simplesmente não fazia parte da cidade. A Zona Sul terminava no Leblon, e além dele o terreno virava uma parede de granito caindo no mar, sem estrada nenhuma. O que hoje é São Conrado era um vale atrás dessa parede — terreno plano entre o Atlântico e as montanhas, embrulhado em floresta, alcançável só com esforço.
Essa geografia fez ao bairro um favor de longo prazo. Ele chegou tarde, chegou de propósito, e as primeiras coisas construídas nele foram grandes — uma igreja, uma estrada, um campo de golfe, um hotel — e não uma malha de ruas. Tudo o que veio depois teve de se encaixar em volta, e é por isso que São Conrado hoje se lê como casas numa encosta acima de terreno aberto, e não como quadras.
As quatro decisões abaixo aconteceram em cerca de sessenta anos, e entre elas definiram a forma que se vê de qualquer terraço da encosta.
1916: a igreja que deu nome ao lugar
O bairro tem nome de igreja. O comendador Conrado Jacob de Niemeyer, empresário carioca, financiou a construção da Igreja de São Conrado no vale; a pedra fundamental foi lançada em 1914 e a igreja foi inaugurada em 1916. Ele escolheu São Conrado como padroeiro porque o nome Conrado se repetia por gerações da própria família.
O projeto foi de um engenheiro dinamarquês, amigo dele, e a construção é modesta em vez de grandiosa — simples, pequena, e diferente de tudo o que se erguia no Rio naquele período. Foi tombada como patrimônio histórico e cultural da cidade do Rio de Janeiro em 2009, reconhecimento incomum para um edifício dessa escala, e que diz algo sobre o quanto ele criou o lugar em volta.
Vale ser preciso sobre um nome que confunde quase todo mundo. A Avenida Niemeyer, a estrada de encosta desta costa, tem o nome de Conrado Jacob de Niemeyer, o homem que pagou a igreja e a estrada. Oscar Niemeyer, o arquiteto, é outra pessoa de outro século, e projetou um edifício nessa avenida — daí a confusão. Dois Niemeyers, uma avenida, e apenas um deles arquiteto.
1916: a estrada pela encosta
A estrada veio no mesmo ano da igreja, e sua origem é mais improvisada do que se imagina ao dirigir por ela. As obras começaram em 1912, conduzidas pelo professor Charles Armstrong, que queria melhor acesso à sua escola na Chácara do Vidigal — e que construiu sobre o leito de uma ferrovia abandonada em vez de abrir traçado novo.
O prolongamento para oeste, até a Praia da Gávea, foi feito em 1915 por Conrado Niemeyer, e a via inteira foi inaugurada em 20 de outubro de 1916 por Azevedo Sodré, então prefeito do Distrito Federal. Dali em diante a estrada levou o nome dele: Avenida Niemeyer.
É a coisa mais consequente que já aconteceu a São Conrado. Uma estrada pela encosta significou que o vale passou a estar a quinze minutos do Leblon em vez de a uma expedição, e tudo o que veio depois — o clube de golfe, o hotel, as casas da encosta, esta casa — depende dela. Dirija hoje e ainda é uma pista dupla de encosta com o mar logo abaixo, um dos trajetos curtos mais espetaculares de qualquer cidade, e ainda vira notícia sempre que uma pedra desce em chuva forte.
1921–1929: o campo de golfe toma o terreno plano
Cinco anos depois de aberta a estrada, um clube fundado em 1921 como Rio de Janeiro Golf Club saiu à procura de terreno. Comprou em São Conrado em 1926, e seus dezoito buracos ficaram prontos em 1929 — traçado de Arthur Morgan Davidson e depois parcialmente reformulado pelo arquiteto canadense Stanley Thompson.
A consequência é a que se nota da encosta. O fundo plano do vale, o terreno mais obviamente construível do bairro, foi comprometido com grama antes de chegar o surto imobiliário do século XX no Rio. Quando a ocupação veio, não teve para onde ir a não ser subir as encostas.
Esse único fato é a razão pela qual as vistas aqui funcionam. As casas estão no morro porque o meio já estava tomado, e o meio continuou aberto, então da encosta você olha por cima de algumas centenas de metros de campo até a praia e o mar em vez de para a janela de alguém. Mais sobre o clube.
1972: Niemeyer, Burle Marx e a torre na estrada da praia
No fim dos anos 1960 São Conrado era imaginado como o próximo grande distrito do Rio, e o projeto que expressou essa ambição foi o Hotel Nacional na Avenida Niemeyer — de Oscar Niemeyer, inaugurado em 1972, com torre cilíndrica curva na orla, jardins de Roberto Burle Marx e um painel de quarenta e cinco metros do artista Carybé feito de duzentas e setenta placas de concreto.
Foi, por um momento, o hotel mais ambicioso do Brasil. Depois fechou, e ficou fechado por mais de vinte anos — uma torre de Niemeyer vazia sobre uma das melhores vistas do Rio, o que é aproximadamente a coisa mais carioca que poderia ter acontecido a ele. O edifício integra o patrimônio protegido da cidade desde 1998, e a proteção abrange o paisagismo de Burle Marx além da arquitetura.
Reabriu em 15 de dezembro de 2016, data escolhida por ser o Dia do Arquiteto e o aniversário em que Oscar Niemeyer completaria 109 anos. Hoje funciona novamente como hotel, com restaurante no alto da torre — o que o torna um dos poucos lugares do bairro onde um visitante entra num pedaço do modernismo brasileiro e janta dentro dele. Onde comer em São Conrado trata disso.
O hotel é também a declaração mais clara do que São Conrado deveria ter se tornado e não se tornou. A versão grande-distrito do bairro nunca chegou por inteiro; o que chegou foi uma encosta residencial silenciosa com um campo de golfe no meio. Quem mora aqui em geral considera esse o melhor desfecho.
Os túneis, e a mulher que dá nome a um deles
A outra coisa que moldou o bairro é o modo de entrar e sair dele. São Conrado fica numa bacia, então suas ligações são abertas na rocha: túneis para a Gávea e a Lagoa, e o elevado e os túneis para oeste pela encosta em direção ao Joá e à Barra. A Autoestrada Lagoa–Barra, que carrega tudo isso, passa direto pelo meio do campo de golfe, dividindo-o em dois.
O túnel que sobe de São Conrado para a Gávea era originalmente o Túnel Dois Irmãos. Hoje leva o nome de Zuzu Angel, a estilista, e a história é séria. Seu filho, Stuart Angel, foi desaparecido pela ditadura militar brasileira, e ela passou anos denunciando publicamente o regime por isso. Em 14 de abril de 1976 perdeu o controle do seu Karmann Ghia na saída do túnel e caiu cerca de quinze metros na via de acesso ao clube de golfe da Gávea.
Um ano antes de morrer havia deixado um texto dizendo que, se fosse encontrada morta, por acidente ou de outro modo, seria obra dos homens que mataram seu filho. Em 1998 a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu — por quatro votos a três — que ela foi vítima de atentado político. O túnel foi renomeado em sua homenagem, o que significa que o trajeto banal de São Conrado até a Gávea atravessa um memorial, e a maioria dos visitantes não sabe.
O outro marco cotidiano do bairro é mais difícil de nomear com conforto, mas não deve ser omitido: a Rocinha, uma das maiores favelas do Brasil, ocupa a encosta acima da via do lado da Gávea, e sua escala faz parte da vista naquela direção. O guia de privacidade e segurança trata disso com franqueza em vez de fingir que o morro está vazio.
O que o bairro é hoje
Hoje São Conrado é residencial, baixo e verde, com condomínios nas encostas, um campo de golfe no meio, uma praia onde as asas-delta pousam, e o Leblon a quinze minutos a leste pela estrada da encosta. A ambição comercial dos anos 1970 deixou o Fashion Mall, que teve seu auge nos anos 1980 como endereço de luxo do Rio e minguou muito desde então, embora novos lojistas e serviços continuem chegando.
O que de fato manteve valor foi a geografia — floresta protegida atrás, terreno aberto protegido no meio, e uma estrada de encosta que não pode ser alargada. A razão pela qual uma casa nesta encosta tem a vista que tem é que quatro decisões tomadas entre 1916 e 1972 trancaram o bairro, sem querer, na condição de baixo.
Para a versão presente de tudo isso — praias, restaurantes, o que fazer, como circular — comece pelo guia do bairro.
Boa parte disso se vê do terraço, e o resto está a quinze minutos de carro. Peça as datas e o concierge mostra o bairro como ele merece.


